ONU: Compartilhar Dados Para Avançar

By Maya Plentz

Dados precisos são centrais a boas políticas e tomadas de decisão. Obter e compartilhar dados entre centenas de organizações, no meio de uma emergência humanitária, é complicado e consome tempo – mas é absolutamente crucial.”

Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres

United Nations, January 24, 2020 – A tecnologia se tornou a pedra angular para operacionalizar soluções humanitárias com maior precisão.  O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) acaba de publicar relatório que demonstra o impacto que Big Data, AI, e Machine Learning têm em operações humanitárias, e como o uso de modelagem preditiva de dados pode criar maiores eficiências logísticas em operações humanitárias.

O Centre for Humanitarian Data (CHD) em Haia, na Holanda, que é a plataforma de dados disponível para agências humanitárias, plataforma de intercâmbio de dados, o Humanitarian Data Exchange (HDX),  promove o uso de dados confiáveis para orientar e apoiar operações humanitárias, tanto na coordenação de campos de refugiados, quanto no trabalho da ONU e suas agencias após desastres naturais.

A seguir excertos da entrevista com the Center for Humanitarian Data*:

“Antes da HDX quando as equipes da OCHA procuravam dados para guiar suas operações tinham que conhecer alguém que pudesse obter esses dados que estavam espalhados dentro da organização. Havia o desafio de não saber a origem e se eram confiáveis. Por isso a HDX foi criada, para centralizar, trabalhar e compilar todos esses dados e garantir a qualidade dos data sets. A plataforma trabalha na área de gerenciamento de informações para agregar, reunir, todas as diferentes partes de uma operação humanitária, para tentar entender de maneira global o que está acontecendo.”

“Alguns data sets são para comparação histórica. Mas a maioria dos dados que priorizamos é sobre o número atual de refugiados ou de deslocados internos, com informações sobre sua localização, por exemplo. A HDX também facilita os esforços de captação de recursos das agências humanitárias da ONU, claro. Países doadores querem ver suas contribuições terem impacto.”

“A plataforma explodiu, atualmente tem mais de 17.000 data sets e em média 150 mil downloads são realizados mensalmente.”

 Como fazer sentido desse avalanche de informação? Quais são os dados realmente importantes, quais são os dados mais pertinentes para as operações humanitárias?”

“Mais de 100 organizações compartilham dados regularmente por meio da plataforma, mas há 28 organizações principais que fornecem dados de alta prioridade, entre elas a agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a UNICEF, e o Programa de Alimentação Mundial.”

“Existem equipes dedicadas em cada agência, gerenciando e limpando os dados, e qualquer equipe das agências humanitárias da ONU podem usar os dados.”

Esses dados, por exemplo, podem ser usados para antecipar necessidades, como foi o caso da crise de Rohingya, onde mais de 700.000 refugiados atravessaram a fronteira para Bangladesh em um espaço de um ano.  O Centro de Dados Humanitários (CHD) foi criado para isso, mas além de fazer a centralização e relacionamento com as instituições que contribuem com os data sets, o Centro também foca na capacitação de pessoal, pois não é suficiente ter dados se as equipes das agencias humanitárias não podem utilizar.  Outra área de atuação do centro é no desenvolvimento de politicas públicas no gerenciamento de dados.

Com o apoio da Comissão Europeia, o OCHA vai desenvolver protocolos de segurança, que identificará vulnerabilidades na plataforma. O tema está em primeiro plano para as agencias do sistema das Nações Unidas, dada a importância de investir para proteger dados, porque os novos marcos regulatórios em torno da proteção de dados o exigem, como o GDPR.

Fica claro que a razão da criação do CHD não foi apenas consolidar a informação.  O centro foi criado para informar políticas publicas de utilização de dados, e para oferecer treinamento. O CHD organiza workshops e webinars para o pessoal em agências humanitárias, priorizando os parceiros dedicados que são os principais colaboradores.

Desde 2019, em parceria com a Data Literacy Foundation, o CHD  também oferece treinamento para equipes da  OCHA que trabalham em diferentes países. Um programa de três meses, uma semana em Haia, e depois alguns meses de treinamento e orientação remotos. Existe uma grande demanda por outras partes da organização e parceiros para continuar fazendo isso.

“Não estamos treinando pessoal técnico, porque profissionais da área de informática saberão como usar as ferramentas. Estamos visando realmente os tomadores de decisão que precisam fazer as perguntas certas.” 

“Treinamos essas pessoas para que não tenham medo de usar o Excel, de usar essas ferramentas básicas. O workshop de data literacy é realmente importante. Trabalhamos muito na orientação sobre responsabilidade de dados, dentro do OCHA e com os parceiros que contribuem com os dados.”

Como conseguir que os parceiros e as instituições confiem e colaborem?

“Na medida em que a confiança se estabelece, as instituições abrem suas bases de dados. Lentamente, construindo relacionamentos, dizemos que estamos aqui para ajudar e tornar as coisas mais eficientes a nível do sistema. E fazemos isso trabalhando juntos, reunindo esses dados em um só lugar. E dando crédito aos parceiros que estão compartilhando os dados.”

A primeira organização que ofereceu dados, em 2014, foi o Programa de Alimentação Mundial. Eles compartilharam seus dados de preços de alimentos e, em troca, o OCHA propôs construir uma interface de visualização de dados personalizada que mostrasse os dados ao longo do tempo, e eles poderiam incorporar essa interface de visualização e usá-los em sua plataforma.

“Porque se o HDX não tivesse funcionado nesses primeiros anos, não poderíamos ter expandido para cobrir mais fluxos de trabalho e ter o calendário de iniciativas mais amplas, como o centro. Nosso principal doador é o Ministério de Relações Exteriores holandês. Eles estavam muito interessados em dados e inovação e viram que nós também estávamos, então havia um alinhamento de visão. Isso saiu da Cúpula Humanitária Mundial, em 2016, quando houve um grande impulso para novas e inovadoras propostas.”

 *Edited for clarity

Para saber mais:

• Site oficial do Centre for Humanitarian Data (CHD)

• Central de visualização de dados humanitários do CHD

• Site do Humanitarian Data Exchange, onde é possível fazer pesquisas;

• Ferramentas gratuitas para análise e limpeza de dados do HDX;