UNESCO: ética e inteligência artificial

By Maya Plentz

United Nations, 26th February 2020 – A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) organiza esta semana, de 26 a 27 de fevereiro, na Costa Rica, um encontro internacional para combater a xenofobia na era da desinformação e da inteligência artificial (IA). Entrevistei o diretor do escritório da UNESCO, em Genebra, Vincent Defourny onde abordamos o tema da inteligência artificial e o papel da UNESCO na elaboração de um quadro normativo. Porque a inteligência artificial esta na agenda?

A UNESCO assinou acordo com a Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU para tratar das questões éticas relacionadas a inteligência artificial, em 2019.  O memorando de entendimento foi assinado entre a Alta Comissária para Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, e a Diretora-Geral da UNESCO, Audrey Azulay, em Genebra.

Ou seja, ao mais alto nível das duas organizações, isto significa que vai estar em destaque na agenda da ONU. O tema tem dominado as conversas nos corredores da ONU, e ate mesmo a Reuters  anunciou que vai contratar um/a jornalista para cobrir o tema de direitos digitais em suas sucursais em Londres e Nova York.

Vincent Defourny, diretor do escritório da UNESCO em Genebra, falou da importância  e do papel da UNESCO na criação de um quadro normativo para regulamentar a questão da ética e usos da IA. Conversamos também sobre o que está na agenda para 2020, e quais são os atuais enfoques principais da UNESCO ​na área da educação.

Vincent Defourny disse que a UNESCO tem um desempenho muito amplo, em várias áreas, e a colaboração com a Alto Comissariado para Direitos Humanos já existia, mas agora vai reforçar essa colaboração, em particular sobre a questão da inteligência artificial e direitos humanos.  

A luz verde foi dada pelos países membros da UNESCO para elaborar um instrumento internacional com o objetivo de desenvolver princípios éticos para a aplicação da inteligência artificial. 

“A UNESCO está acompanhando este desenvolvimento tecnológico, segundo seu mandato de fortalecer a compreensão mútua entre os povos com bases em direitos fundamentais e deve se posicionar no debate sobre a inteligência artificial com referências éticas claras, baseadas nas convenções internacionais de direitos humanos, no respeito aos direitos humanos.”  Vincent Defourny

Sobretudo no combate ao discurso do ódio, que incita a violência, através das redes sociais. Essa amplificação que está acontecendo, nada acidental, tem causado preocupação, então organizações como a UNESCO e o Alto Comissariado para Direitos Humanos buscam debater as dimensões éticas do uso da inteligência artificial (IA) nos meios de comunicação e nas redes sociais.

A UNESCO estará a frente da criação de um quadro normativo para tratar da IA, no qual o Alto Comissariado para Direitos Humanos participara, e irá organizar conferencias com representantes do terceiro setor e governos. Tem ja uma série de atividades agendada em torno do tema da IA para 2020.  Em dezembro passado organizou um seminário para falar sobre o antissemitismo, que se insere no combate ao racismo, e como se  hoje em dia se propaga através das redes sociais.

Vincent Defourny lembrou que a UNESCO tem indicadores para monitorar a qualidade do acesso a internet nos países membros. Usa um acrônimo para definir estes critérios : ROAM, que significa Right (Direito), Openness (Acesso), Accountability (Responsabilidade), e Multi-stakeholders (Participação).  Essas quatro palavras chaves apontam o papel que tem a comunicação, o papel da tecnologia, e inteligência artificial, nas questões dos direitos fundamentais da pessoa.

A UNESCO lançou também um guia para jornalistas sobre violência perpetrada em mulheres e meninas, com sugestões de como cobrir o tema. A UNESCO realiza muitas atividades para educar jornalistas, não só em países emergentes. E como agora precisamos educar jornalistas no mundo inteiro, sobretudo com a questão de Fake News que são disseminados através de redes sociais, para compreender a amplificação do discurso do ódio nessas plataformas.  

Outro tema que abordamos foi a convenção para o reconhecimento das qualificações acadêmicas, a Recognition of Higher Education Qualifications.  O que esta convenção significa para instituições universitárias e para graduados que se mudam com maior frequência de um país a outro hoje em dia? Como esta convenção beneficia graduados e instituições?

A convenção serve aos graduados universitários, para que possam ter seus diplomas reconhecidos. Particularmente importante para migrantes, para refugiados, que muitas vezes tem um diploma de ensino superior em seus países de origem e que não podem trabalhar em suas profissões no país hóspede, e terminam por fazer trabalhos menos bem remunerados e não utilizam o nível de qualificação acadêmica obtido no pais de origem.

E para os países que os recebem, se esses migrantes e refugiados não podem atuar na área na qual estudaram, isto significa uma perda fiscal para o pais, pois se pudessem trabalhar em postos renumerados de acordo com o nível educacional que tem provavelmente iriam pagar mais impostos pois seriam mais bem pagos.

“Educação significa investimento que os países fazem no seu capital humano.” Vincent Defourny

Falamos por vezes de fuga de cérebros, mas muitas dessas pessoas não podem retornar aos seus países de origem. E com o ônus de demonstrar que suas qualificações acadêmicas adquiridas em países emergentes são tão boas quanto qualificações acadêmicas adquiridas em capitais europeias ou universidades americanas, a perda e tanto delas quanto do pais hospede.

“Sim esse reconhecimento pode ser a win-win para ambos. Tanto para o país hóspede quanto para o empregador. Caso muito concreto, uma jovem fisioterapeuta, refugiada da Síria, chegou na Noruega e, depois de um processo de reconhecimento de seus diplomas, ela pode hoje atuar como fisioterapeuta. Então era fisioterapeuta na Síria e agora está trabalhando na Noruega na sua profissão. E claro que isso é fantástico. A integração no país se faz muito mais facilmente.”  Vincent Defourny

A UNESCO comemorou também o Dia Mundial da Educação.  Através do Global Monitoring Report, relatório mundial, avalia o progresso realizado pelos países membros na área da educação,e tem como critérios a qualidade, o financiamento, e o acesso. Os dados são coletados pelo instituto de estatísticas da UNESCO que está baseado em Montreal, no Canadá. A plataforma permite criar visualizações dos data sets.

“A UNESCO lançou um processo participativo, através de uma plataforma online, que chamamos Os Futuros da Educação. No plural. E está aberta a todos, países membros, universidades, comissões, para reflexões e recomendações, e podem aí também colocar os relatórios e resultados de debates, para alimentar um relatório internacional vai ser publicado em 2021.” Vincent Defourny

Nos anos 70 a UNESCO publicou um relatório intitulado: Aprender Para Ser.  Significando não somente aprender para conhecer e fazer, mas para ser.  Nos anos 90 o tema da educação no século 21 foi tratado, quais eram os grandes desafios?

Também foi destacada a necessidade de nao só aprender para conhecer, para fazer, para ser, mas também aprender a viver juntos. Aprender a conviver. Isso foi o quarto pilar dos fundamentos da educação.

Vincent Defourny disse que o proximo relatório ira refletir sobre “aprender a aprender”,  pois e’ fundamental aprender a usar as tecnologias da informação na educação, e desenvolver programas para mídia literacy.

Hoje em dia, mais do que nunca, as crianças devem ser educadas em como ler e analisar os diferentes meios de comunicação e seus conteúdos, nas redes sociais. Por exemplo, “o que é o TikToK?”, o New York Times tem um programa de media literacy onde eles ensinam os fundamentos de mídia literacy.

“E como fazer se uma notícia que você vê nas redes sociais ​não é verdade? Como verificar?  E quais são os interesses que estão atrás dos fake news?  Esses são grandes temas que seguramente estarão presentes nessas discussões e neste relatório.” Vincent Defourny

Falamos também da volta do Courier, uma publicação da UNESCO. Uma revista que fala dos temas que interessam a UNESCO, publicada desde a fundação da agencia, e durante várias décadas foi mensal.  O Correio foi relançado em 2016, e hoje tem uma versão online, gratuita​, ​bem como uma impressa, que é publicada em português, e em todas as línguas oficiais da UNESCO.

O Correio tem abordado temas como questões éticas e IA, mudanças climáticas, e na edição de novembro passado, falou sobre os professores primários que têm essa capacidade de mudar o mundo, “porque educar crianças significa transformar o mundo.”, falou Vincent Defourny.  O número atual aborda a Rádio. Tem um século que escutamos rádio. Meio de comunicação que foi reinventado muitas vezes ao longo de sua historia.

“Agora os podcasts são uma forma de reinventar a rádio também.” Vincent Defourny

Sobretudo em países da ONU que ainda não tem acesso universal para a Internet, a rádio chega em todo lugar. Apenas a metade da população mundial tem acesso a Internet, de acordo com dados da União Internacional de Telecomunicações. Desses 4.1 bilhões nem todos tem acesso a banda larga. O rádio ainda hoje e, e sobretudo em áreas de conflito na África, Oriente Médio, e Ásia onde a ONU atua na área humanitária, um meio de comunicação que chega a todos.

Entrevista realizada, transcrita, e produzida por Maya Plentz Fagundes, na sede da ONU em Genebra, para o The Shift www.theshift.info 

Para saber mais:

Inteligência artificial: entre o mito e a realidade

Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU

Guia para jornalistas sobre violência perpetrada em mulheres e meninas, com sugestões de como cobrir o tema.

Dados da União Internacional de Telecomunicações.

Recognition of Higher Education Qualifications

Instituto de estatísticas da UNESCO que está baseado em Montreal, no Canadá.

Global Monitoring Report