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“Se os investimentos necessários forem feitos, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo estudo, o retorno para a sociedade em termos de produtividade – e até mesmo o início de um circulo virtuoso, não apenas de benefícios econômicos, mas em termos de desenvolvimento humano – se daria em quanto tempo?”

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Maya Plentz interviews researchers at ILO in Geneva

Geneva, January 2004

A Organização Internacional do Trabalho lançou recentemente um estudo avaliando os custos e benefícios de investimentos importantes para a eliminação do trabalho infantil no mundo.  Investimentos da ordem de 500 bilhões de dólares, na área da educação de base, sobre um período de 20 anos trariam benefícios extraordinários para as sociedades dos países mais pobres em termos de desenvolvimento humano. E isso em um espaço relativamente curto, de acordo com o cenário projetado pelo estudo da OIT, em apenas 7 anos.  Segue entrevista com Anita Amorim e Peter Matz, pesquisadores da OIT em questões relacionadas com o trabalho infantil.

Mayara Fagundes: O primeiro estudo da OIT para avaliar custos e benefícios do trabalho infantil foi divulgado recentemente, como foi a recepção dos órgãos de comunicação em relação a este estudo?

Peter Matz:  A recepção da mídia mundial foi muito boa, isso nos da esperança que isso pode ter uma repercussão favorável para políticas publicas, no sentido de sensibilização de diferentes órgãos administrativos, para o combate ao trabalho infantil. Sobretudo suas piores formas. Como está estabelecido na convenção 182 da OIT. E esperamos que esta sensibilização se converterá em atividades concretas que terão um impacto positivo no aumento da escolarização de meninos e meninas no mundo inteiro.

Mayara Fagundes: Anita qual a reação da mídia ao estudo?

Anita Amorim:  Eu avalio a reação como bastante positiva. Mídia do mundo inteiro, em todos os continentes – rádio, televisão e jornal – falou sobre o estudo. Saiu um bom artigo na revista britânica The Economist. Realmente isso reflete um interesse maior da arena internacional no tema do trabalho infantil.

Anita Amorim e Ministro Furlan
Anita Amorim, from ILO, placing the IPEC pin on Ministro Furlan’s lapel at the UN in New York

Mayara Fagundes: Quais os investimentos a serem feitos e em que áreas, segundo este estudo, Peter?

Peter Matz: Sobretudo na área da educação, em temos de quantidade e qualidade da educação de base. Temos estimado que os custos seriam, para esta oferta na área da educação, de quase 500 bilhões de dólares, sobre um período de 20 anos.

Mayara Fagundes:  Se os investimentos necessários forem feitos, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo estudo, o retorno para a sociedade em termos de produtividade – e até mesmo o início de um circulo virtuoso, não apenas de benefícios econômicos, mas em termos de desenvolvimento humano – se daria em quanto tempo?

Peter Matz: Apesar dos custos parecerem altos, os benefícios econômicos, começarão a surtir efeito em sete anos (dentro deste cenário de investimentos de 500 bilhões de dólares em um período de 20 anos). Quando as crianças atingem a idade mínima legal para o trabalho se vêem os benefícios econômicos relativos ao investimento na educação. No entanto os benefícios em termos de saúde são imediatos.

Mayara Fagundes:  Que dados foram utilizados, que países foram analisados? Qual foi a metodologia empregada?

Peter Matz:As equipes de pesquisa reuniram informações em oito países: Brasil, Senegal, Quênia, Tanzânia, Nepal, Ucrânia, Paquistão e nas Filipinas. Estes países apresentaram dados mais completos. Uma segunda camada consistia de aproximadamente duas dúzias de países adicionais, onde as pesquisas domiciliares primeiramente desenvolvidas pelo IPEC e pelo Banco Mundial foram feitas na ultima década. Embora não sejam completas elas forneceram muitos detalhes para entender os fatores de custo e benefício. Para os outros países nos utilizamos dados econômicos, demográficos, e de educação que estão disponíveis para o publico.

Mayara Fagundes:  Anita, em relação a questão de HIV/AIDS. Como este aspecto foi tratado dentro dos programas do IPEC em relação ao estudo?

Anita Amorim:  Em relação ao estudo, de fato, o impacto da AIDS e da dimensão da AIDS tem se sentido mais na África subsahariana, na perda de pessoal, professores primários e secundários, na área da educação. E isso implicaria num custo maior para os países da África subsaariana. Isso foi levado em conta, inclusive existe um estudo do Banco Mundial que estima que para obter os objetivos de educação para todos ate 2015 e necessário um investimento de 500 milhões de dólares a mais por ano por causa da AIDS. Isso em relação à escolaridade das crianças. Por outro lado, no que concerne a questão do trabalho infantil estamos muito preocupados e estamos começando ações na área de intervenções que levem em conta que a AIDS tem um impacto real no trabalho infantil, e que a perda dos pais leva as crianças a trabalharem. E isso resulta no envolvimento de meninos e meninas nas piores formas de trabalho infantil.

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Mayara Fagundes é cientista política e foi produtora dos programas e boletins diários da Rádio da ONU em Nova York. Graduou-se em Ciência Política pela Columbia University, com especialização em Comunicação e Relações Internacionais.